dojeitoquefala

8.2.12

[ serenando, querendo serenar ]

cercava-se de gente e queria assim enxergar revelações a partir de palavras e gestos, de olhares e tons de outras histórias que não a sua. quem sabe distraidamente...

deitava-se na areia quente, arrepiando-se de prazer, e só entrava na água quando começava a ferver. um mergulho de alívio nas águas que são sua casa, seu berço, sua redoma. submergir no silêncio e retornar à luz era um movimento rítmico feito um mantra.

cuidava de sua casa, de sua pele, de seu estudo, ia vendo de pouquinho que a sua vida era inteira - quando enfim juntava um pedaço no outro. largava-se na cama, curtia o ventinho que soprava tão macio ali pra si, com barulho de passarinho e fresta de céu azul.

queria ardentemente que sua alma acreditasse naquilo tudo, que se reconstruísse, que fosse linda e cálida, que preenchesse com completude esse espaço enorme que mais uma vez estava aberto. porque saber e sentir não são a mesma coisa, e um sem o outro não são é nada.


não venha me falar, meu grande amor...

[ L. ]

23.1.12

[ torno terna ]

perdi o jeito. não retorno trazida pela tristeza, nem pela falta de amor, nem pela busca, nem pela perda, nem a alegria de imergir, nem a de emergir, nem a de respirar, nem a de perder o fôlego.

não venho pela curva perigosa, não pelo precipício, nem pelo rio, nem mesmo pelas estradas vermelhas que conheço, agora.

o que me traz é a falta de jeito.

onde vou buscar um jeito de passar por essa, quando não falta amor, não falta carinho, não há ausência, não tem rancor, nem mágoa, nem desrespeito. não tem vontade de distância, mas ela vem, de que jeito?

se falo de solidão não é pra menos, ela existe. existe dentro de mim e não é outra coisa senão falta de jeito. e descubro (mais uma vez, de outro modo, por outro lado) que sou assim. sou-nãosou, sei-nãosei. mas sinto inteirinha.

de que jeito?


ser-nãoser poeira, partir no vento e não sumir, espalhar-me por toda parte mas não me perder. de que jeito?

[ L. ]

17.12.11

[ eu ouviria as piores notícias de seus lindos lábios - ou de quando desejei um título incrível, ainda que não fosse meu ]

se hoje eu penso que tenho que chegar em algum lugar, não é porque quero um fim, mas porque preciso saber o chão em que pisarei já agora, nesse próximo passo. de onde vim eu sei. para onde vou nem é tão importante, mas por onde, por onde? qual a direção?

estou, por hoje, decidida a escrever pouco, mas confesso que grande parte do questionamento todo tem menos a ver com quem eu sou do que com como vou fazer pra viajar, comer bem, viver tranquila e de vez em quando dar regalos bonitos pras pessoas amadas.


que mais, vida eterna, me planejas? (repetirei até ver um indício de resposta... será?)

[ L. ]

29.11.11

[ meninos, eu vi ]

estive ausente, caminhando e fazendo caminho ao andar... não pra muito distante. voltei. agora pra ficar. (?)

se não (re)começo agora, seinhão, vi.

[ L. ]

22.2.11

[ que venga el toro ]

andei sem parar, o fôlego faltando, a garganta queimando sem água, sol a pino ou noite escura, andei. sem parar! não encontrei destino, encontrei caminho. sigo.

andei sumindo, amoramando, andei sorrindo. :)
voltei.

[ L. ]

16.11.10

[ chegança ]

Andando manso, um pé depois do outro, cofiando a barba rala, botando e tirando a mão do bolso, afastando do olho a mecha de cabelo que insistia em cair de volta. Um homem alto, magro, polido e informal; não intimida, mas impõe respeito. Vinha calado e curioso, postava-se meio à parte, embora sempre presente, e observava cuidadosamente, sem afronta, só atenção. Levantava e saía sem se despedir, sem se apresentar, e deixava a pergunta (quem?) pendurada no perfume de água doce que ficava atrás, no seu rastro. E aparecia no dia seguinte e no outro, e se ia da mesma maneira.

Um dia falou. Disse: sou T., vim de longe mas parece que sempre estive aqui, por isso volto, feito quem volta pra casa. Posso deixar de vir se for desconforto, posso falar alguma coisa se preferirem, mas gosto mesmo é de ficar calado e apenas pertencer a essa sala, a essa cidade. Prefiro ficar, se me deixarem. Se quiserem, contribuo, mas se não fizerem questão, venho e não me deixo perceber. Pareço novo mas não sou: sou velho e estou cansado, mas não sinto que deva parar ainda. Leio, aprendo, mas não sei ensinar. Abro portas para deixar que passem, fecho cada uma atrás de mim, apago a luz, aperto a torneira para que não pingue, cumprimento com discrição, me movo em silêncio, desapareço com destreza. Peço apenas que não me perguntem mais do que o tanto que já pude dizer.

Sentou-se no fundo da sala e esperou que começasse, como todas as semanas.


chuva na horta, café quentinho, cama desfeita, cada cantinho, pés de bem-vindo já na soleira da porta. c'est ça? então pode ficar.

[ L. ]

21.10.10

[ pequenezas ]

um silêncio se apodera do instante.
cadê a pessoa que estava aqui?
que destino aparece adiante?

não sei rimar.

não sei dizer.

ando sedenta e não sei beber. ando caindo
corro com pressa, tropeço
não sei cair. machuco
levanto sem jeito, disfarço
parece que nem sei ser
sei?

uma vida miúda, essa
cheia de cacos por baixo dos pés
o peito de estilhaço
a alma de fuligem pesada
passa, mas deixa marca.

abandono a vontade em nome de que?
de silêncio.
adieu, les enfants. vou ali pausar.


será só um dia difícil? ou devo crer nesse passar de horas ininterrupto me dizendo confusões de um lado e de outro?

[ L. ]