[ serenando, querendo serenar ]
estive ausente, caminhando e fazendo caminho ao andar... não pra muito distante. voltei. agora pra ficar. (?)
Andando manso, um pé depois do outro, cofiando a barba rala, botando e tirando a mão do bolso, afastando do olho a mecha de cabelo que insistia em cair de volta. Um homem alto, magro, polido e informal; não intimida, mas impõe respeito. Vinha calado e curioso, postava-se meio à parte, embora sempre presente, e observava cuidadosamente, sem afronta, só atenção. Levantava e saía sem se despedir, sem se apresentar, e deixava a pergunta (quem?) pendurada no perfume de água doce que ficava atrás, no seu rastro. E aparecia no dia seguinte e no outro, e se ia da mesma maneira.
Um dia falou. Disse: sou T., vim de longe mas parece que sempre estive aqui, por isso volto, feito quem volta pra casa. Posso deixar de vir se for desconforto, posso falar alguma coisa se preferirem, mas gosto mesmo é de ficar calado e apenas pertencer a essa sala, a essa cidade. Prefiro ficar, se me deixarem. Se quiserem, contribuo, mas se não fizerem questão, venho e não me deixo perceber. Pareço novo mas não sou: sou velho e estou cansado, mas não sinto que deva parar ainda. Leio, aprendo, mas não sei ensinar. Abro portas para deixar que passem, fecho cada uma atrás de mim, apago a luz, aperto a torneira para que não pingue, cumprimento com discrição, me movo em silêncio, desapareço com destreza. Peço apenas que não me perguntem mais do que o tanto que já pude dizer.
Sentou-se no fundo da sala e esperou que começasse, como todas as semanas.
chuva na horta, café quentinho, cama desfeita, cada cantinho, pés de bem-vindo já na soleira da porta. c'est ça? então pode ficar.
[ L. ]
um silêncio se apodera do instante.